A estiagem chega a Goiânia como quem sabe o caminho. Não anuncia, se impõe. O céu limpa, o ar fica mais leve e o sol passa a reger o ritmo da cidade. Nesse tempo seco, quando a terra pede água e o corpo pede sombra, as praças surpreendem. Flores abertas, cores vivas, um desenho urbano que parece mais nítido. Não é acaso. É cuidado diário, repetido, quase invisível. E, ainda assim, presente em cada canteiro que insiste em florescer.
Na Praça Ciro Lisita, no começo da Avenida Castelo Branco, no Setor Coimbra, Ademir Campos trabalha como quem conversa com o chão. Rega com medida, retira pragas com paciência e acerta o corte da grama como se estivesse aparando um detalhe de casa. O trânsito corre ao redor, mas ali dentro o tempo é outro. O contraste é claro. O peso do sol é escaldante. Mas a delicadeza de folhas e flores, resistem. E não por acaso. É porque alguém está ali, todos os dias. Quase ninguém vê, mas tudo muda por causa disso.
Muda cenário, mas a hora é a mesma. Rotatória do cruzamento da Avenida Dona Gercina Borges com a Alameda dos Buritis. Lindomar Lima segue no mesmo turno de sol e silêncio. Ele cuida do início, do que ainda é promessa de cor. Mais tarde, aquilo vira paisagem, vira referência, vira um pedaço bonito no caminho de quem passa sem saber de onde veio. Do viveiro dentro do Ponto de Apoio Residencial Kátia saem as plantas que, depois, ocupam os espaços da cidade. O Projeto Florescer espalha esses pontos de beleza e refrigério pela cidade. A missão é costurar mais cores a lugares já conhecidos.
Talvez por isso a cena lembre um verso simples, desses que cabem no cotidiano sem fazer barulho. “Floresceu, pé de flor flora, no lugar onde o amor mora.” A música de Carlos Brandão parece feita para esse instante em que a cidade seca insiste em florescer. Porque há algo de teimoso nisso tudo. Algo que lembra o sol insistente e escaldante do dia do goianiense.
Goiás tem disso. Tem um jeito próprio de lidar com o calor, de transformar o que poderia ser árido em cenário vivo. O poeta goiano Gilberto Mendonça Teles não só revela o sol com toda a sua importância física, como parte da construção do Estado e da capital dos goianienses. Em primeira pessoa, o sol participa: “Instalo-me no sólio esplêndido de um astro”. Participa mesmo. Puxa o ritmo, testa a resistência, mas também realça o que é bem cuidado. No fim, a cidade responde com flor, com cor e com uma beleza que não é de ocasião. É construída. É zelada.
Os uniformes verdes e alaranjados da Nova Comurg às vezes se perdem no meio desse quadro. Confundem-se com as plantas, com os canteiros, com o próprio cenário. Talvez seja justo. Quem cuida da paisagem vira parte dela. Mas basta um olhar mais atento para perceber que, por trás de cada flor aberta no tempo da seca, existe uma rotina firme, feita de sol, de esforço e de um certo orgulho silencioso de ver a cidade florescer. Mesmo que tudo ao redor peça o contrário.

Fonte: A Redação – https://aredacao.com.br/goiania-floresce-na-chegada-da-seca/
